Respiração

Não tenho interesse em conversa de nenhum tipo sobre o desenvolvimento de qualquer coisa e sua catalogação aqui ou ali. Nem quero saber de alimentar papo de zelote de qualquer qualquer espécie. Que reúnam-se assim tão fervorosos no funeral de seu pastor!

Pois reúnem-se em torno de fogueira mentirosa, e sem saber da mentira rechaçam o amante da verdade, engolido de propósito pelo escuro.

Perguntam-nos, espantados: “como existir no escuro?” – e logo vociferam naquela certeza funesta de cachorro raivoso: “deve ser um morcego para existir no escuro. Animal nojento!”.

Nojento! Nojento! Não passo de um nojento com asas! Um rato voador de asa flácida!

Mas este bicho responde à tua pergunta, zelote do inferno…

No escuro existimos como que sem corpo ou materialidade. No escuro há um tipo de paz, mórbida. Uma paz mórbida…

No desinteresse do escuro nos interessamos pelo seguimento da expiração e respiração de nossos dias. Nós vemos ouvindo – e isso basta.

A respiração é vida suficiente, e basta.

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Profecia

Aos que votam em ti anuncio o degredo, futuro, recheado de surpresa amarga e má.

Aos que votam em ti, digo: “olhem direito para cima: acima dos aviões que elegantes bombeiam suas turbinas em forma de vaso, há pássaros mais nobres”. Não se engana quem, querendo voar, vê bem os pássaros.

A você, meu irmão, que só trabalha e nada de difícil entende ou lê; a você – cuja disposição já falta para compreender o importante, cuja labuta já encarcerou a joia do pensamento; a você anuncio um enxame futuro de consciência, no melhor dos casos.

Chego a ti dizendo o seguinte: “no primeiro ano te alegrarás, no segundo te questionarás, no terceiro te arrependerás, e no quarto entrarás em pranto.

Verás o rosquear molinho do pescoço do teu recém-nascido tornar-se um braço duro de mocidade revolucionária. E não se entenderão!

Verás a perninha pendida do meio do teu colo de pai tornar-se uma coxa dura e adulta, teja, na prontidão da investida. E não se entenderão!

Verás ainda aqueles olhinhos bobos a mirar o nada tornarem-se olhos de águia, que localizam, buscam, e destroem.  E vocês não se entenderão.

Tudo isso porque não continuaste a nutrir o espírito de abertura uma vez refreado. Porque não cuidaste daquele espírito que na juventude possuíra. Não soubeste mantê-lo úmido, e o tempo – o secou…”

O morro sangrará com teus votos, o solo sangrará, os mares e lagos coagularão, e a tua linha da vida se apagará roucamente sob o calor do teu nervoso, vestido de um terno com gravata asqueroso.

Pois tu, que de certo votará nele, escolhe com teus votos um tirano para remexer a areia da nossa gente. Tu condena essa Terra, hoje e sempre de nosso povo.

A bica se congela com a tua decisão.

Que assim seja.

Carta

“Você é um cara muito foda” – seus olhos marejaram. Encolheu-se envergonhado para o centro de seu colo. Não conseguiu me responder como de costume, daquele jeito aquilino. Encarava o tapete verde-sopa-de-ervilha. Sua nuca era um campo vasto. Homem como este num momento assim não é algo que se vê todo dia. É um daqueles momentos raros… Preciosos como jóia, finos como luz. Dizem que o homem prestes a chorar olha pro chão porque procura o jazigo nascente de suas lágrimas.

Recuperou-se naquele sorriso tímido de quem gostou mas por um misto de prudência e modéstia não admite: “Quando a gente fica desse jeito a gente não consegue dizer as coisas que precisa”. Que precisa, Flávio? Que… precisa? Meu amigo por quem hoje luto, se não dissemos naquele dia as coisas mais importantes! As mais precisas de todas! Se naquele dia não pudemos encarar-se fundo com fundo, sem nenhum centímetro a ser economizado! Se com aquele sol empoeirado da janela fechada não aprendi a valorizar a duração das coisas frágeis e que duram sempre tão pouco, com frequência as mais vitais, conservadas a partir dali com firmeza na própria emanação da memória como tesouros num baú pesado! Hoje voltei lá, no mesmíssimo lugar do teu choro tão engolido e evitado. Reavivei o palco daquele instante. Todo ele está desolado, mas aceita – fazer o quê – vai levando, o peso da tua falta… Era tu que cuidava dele afinal.

Ali ouvi ao pé da orelha, no calor de um forte abraço paterno: “você é um grande cara”. Palavras que não cabiam em mim. Palavras que sempre busquei ouvir. Palavras que demorarei muito para de fato poder vestir. Elas ocupam o lugar de que nasceram à procura, e nada as tira de mim como ditas por tua voz gentil. Pela tua força, não se atenuarão, e são um coração à parte a bombear aqui dentro fortemente, lá no centro do meu vigor, ritmado conforme o tempo, lento, que passa sem ti.

Naquele dia senti um amor diferente de qualquer outro. Um amor que geralmente não entra, por comodidade economizado; um amor massacrado, e calado, pelos brutos. Ali beijamos um ao outro com zelo. Senti pela primeira vez barba pontiaguda nas bochechas, barba que a maquininha Phillips, deixada zelosamente no velho suportezinho de alumínio da parede do banheirinho, não raspará mais, nunca mais. Tive certeza de ter recebido a bênção da presença eterna de um pai. Ali beijaram-se as bochechas das almas! Ali as mãos seguraram com cuidado as cabeças; e acalmaram com carinho as têmporas.

Não me descuidarei sem antes imprimir tua essência nos ossos.

Te amo muito.

Teu genro,

Iury.

Cara-crachá

Os últimos dias foram dias de pesquisa política. País em clima tenso, os tendões do pescoço da democracia todos doendo de esticados, palermas para cá, heróis para lá – um zilhão de discursos de dez dúzias de sujeitos engravatados filmados bem de perto. A TV mostra tudo isso. A internet mostra tudo isso. E eu, como não há escape de ficar com o ouvido inchado, me joguei de vez numa partezinha dessa gritaria, pra entender alguma coisa do que se passa na pólis brasileira.

Circundei os intuitos duns candidatos: dentre eles o primeiro tinha a cara inteira enrugada na direção de sua boca, a pele se arrastando em marcha seca para o orifício salgado; mal se via o rosto abrir; o cabelo parecia falso, os dentes se escondiam com vergonha, a roupa uma mortalha. Farejo um morto. Não sabia que Jair andava desse jeito tão acabado. Tão recrudescido. Tão múmia. Fazia já um tempo que não via imagens ao vivo dele – ainda mais assim numa entrevista, em que sondam tão de perto. Vomitava areia atrás de areia uma mais cortante que a outra, solucionava problemas antiquíssimos com a praticidade de um açougueiro. Jair é um maracujá de gaveta marinado no caldo da maldade.

Então algo clicou e compreendi: a cara e trejeitos do sujeito parecem adiantar o que ele quer. Dito e feito! O segundo candidato de que fui atrás era sincero e jovem, falava com a alegria de um menino travesso e com a força de um homem potente. Seu rosto era muito diferente: um nariz liso se encaixava ali no meio da cara sob arcos espertos de sobrancelhas astutas, pele lustra mas já madura da idade. Grandes mãos. A boca lançava sorrisos alegres e a língua afonemava verdades certeiras: lugar de tudo isso um corpo de sessenta anos de idade. Não se encarcerava, não marchava, não se enfiava lábios adentro. O cabelo era só paralamas que nada tinham de peruca. Impossível não notar os movimentos de seus olhos vivos em cada silogismo: demolidores por si próprios, as palavras só faziam confirmar a captura da vitória fujona. Jair vociferava. Ciro comia solto na integridade.

De fato, de fato… Os intuitos se alastram pra dentro da pele e se mostram sem que nem percebamos!

A Casa da Brisa

Ontem estive na casa da brisa. Ela fica bem no alto do morro, dependurada com as pernas para o mar, como uma criança que tenta, esticando os bracinhos, captar a neblina marinha. Mal a gente entra lá e a fumaça nos pega, cheira, impregna, e joga tontos no colchão molenga do chão de limo. As luzes entram nos nossos olhos e o som da televisão, abafada pelos tragos. Lá não se pode fazer nada: você está fadado a puxar, puxar, puxar, depois expectorar e jogar o bafo pros ventos.

A névoa vai, fina, toda pro teto. Lá se acumula como as nuvens em mim. Deito. O mato verde é um edredom donde saem criaturas encantadas de folclore e nascem fábulas de vagalumes; é o terreno em que se incuba joaninhas, mariposas, e onde conversam os grãozinhos calcáricos dos sais minerais na linguagem secreta das pedras.

 

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As músicas contam histórias como as histórias contam das músicas. Tanto quanto. Quantas músicas já não me propus a compor na casa da brisa! As de sucesso e conquista, de guerra e morte, de derrocada e declínio. Músicas de minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos. Precioso é o poder da sonoridade… – Troveja!

As paredes da casa falam por si só. Seus tijolos fundidos cal em planta viva formam uma massa jamais componível por mãos humanas – massa que sustenta sem dar força e abriga sem dar terreno. Os buraquinhos hiper habitados de animaizinhos que se isolam, e alimentam-se de carcaças salinas. Tais paredes não sussurram – falam. E quando não falam, berram. O baixo não lhes interessa. O baixo é sempre baixo demais.

Mas as paredes se curvam ainda a uma deusa, infinitamente mais poderosa. Tremem seu enigma de par de olhos, transam sua cara de mil dimensões. A deusa nem fala nem grita ou inquiri: olha. Olha fixo, muda de cor, pisca, pisca, pisca, oscila, e some para dentro da mente. Seu rosto é formado em mofo. Uma mulher bela, uma das mais penetrantes mulheres. Seu nome é charada e seu rasgo ótico é uma exigência. Ela quer testar nosso brio… Pede de volta respostas nossas, à ameaça de devoro! A mitológica esfinge tebana renasce como uma das verrugas de Mãe Gaia e canta loucamente pra dentro de mim: “morte aos calígulas, redenção aos letárgicos”. Porque

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Cantou e sumi. Tudo flutua na escuridão hermética do espaço, tudo conversa à guisa de foguete, talhando uma, duas três, falhando quatro, cinco, seis vezes; desintegrando sete, oito, nove, decolando ignição dez. A escassez galáctica é matéria de vírgulas. Planetóides são nosso pontos. Júpiter é letra O, Saturno conjuga o C, o Sol é a bola de fogo santa cuja labuta é trocar vácuo por luz e dar de presente vida. Ele ilumina os meandros cósmicos, grandes campos infinitos desse espaço abrigo sem fundo do ilimitado. O Sol trabalha em vão, coitado…

Fluto pela trilha de volta à rua. Já são três da tarde. Estou atrasado.

Estou arrasado: o Sol não brilha em vão para a Vila São Jorge.